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O Fantasma dos Anos 2000

Como a adaptação de Ghost In The Shell americana não precisa de grandes introduções, podemos começar a falar sobre ele já pensando no porquê de sua existência, entendendo por exemplo o que tem levado Hollywood a produzir intermináveis adaptações e remakes.

A explicação vem provavelmente da falta de originalidade crônica da indústria americana. Não se trata de não poder contratar bons roteiristas, apesar de muita gente do meio do entretenimento afirmar que todos os bons criadores foram para as séries e desistiram dos longas metragem. Antes o problema é como funciona a própria lógica dessa máquina de defesa da ideologia capitalista.

Analisando a mídia e a conjuntura geral de nossos tempos, talvez possamos dizer que a rebeldia comportamental (antes representada pelos hippies) anda fora de moda. Há muito tempo já que a figura do artista descabelado e drogado da Nova Hollywood foi substituída pela do diretor metódico e perfeccionista.

Parece ser mais interessante sentar dezenas de profissionais de pós-produção (animadores, compositores, designers 3D, etc) para trabalhar, do que se engajar em projetos autorais, escrever roteiros questionadores ou assumir uma estética mais crua.

De fato a única instância em que Hollywood ainda impressiona é na pós-produção. E talvez para que o espectador não precise se ater tanto ao conteúdo, a narrativa passou a ser coadjuvante, para que a criação de cenários e efeitos seja a protagonista.

Isso posto podemos tentar entender a adaptação americana de Ghost In The Shell desde seus efeitos especiais até a polêmica sobre whitewhashing, surgida com a escalação de Scarlett Johanson para o papel principal.

Para fazer uma comparação estética e ideológica não precisamos sequer de todo o filme, basta tentar compreender as diferenças entre as introduções dos filmes japoneses, em relação à versão americana. *

Os três filmes abrem com o mesmo prólogo, mostrando a construção do corpo inorgânico: a concepção do ciborgue. Mas se nos animes essa introdução é carregada de mistério, sustentada por uma ambientação sombria e uma música impressionante, diferente de tudo o que o espectador já ouviu, a versão americana não passa de uma espetacularização do desenvolvimento tecnológico.

O mistério do anime é substituído por uma aura épica transmitida pelos contra-plongês** e pela trilha do filme americano. O visual cyberpunk dos primeiros são transformados em uma estética institucional do pior clichê da indústria cinematográfica.

Essa estética institucional, que se consolida a cada dia, merecendo até uma aba própria em sites de música, ao lado de gêneros como o rock ou o jazz, é justamente o que torna a narrativa muito menos interessante e o whitewhashing tão evidente.

No filme de Rupert Sanders, a ambientação em uma Tóquio do futuro sustenta os mais diversos estereótipos japoneses, com imensos hologramas de carpas espalhados pela cidade e a personificação da ciborgue construída para o sexo na imagem de uma gueixa robô. A cultura japonesa é aí uma mera imagem espelhada do processo de mercantilização dessa mesma cultura.

Além da figura da protagonista que nasce como uma humana japonesa e é transformada em uma ciborgue branca e ultra sexy interpretada por Scarlett Johanson. A escalação da atriz foi sustentada pela produção como uma forma de não tornar a questão racial tão evidente no filme, mesmo argumento repetido toda vez que um personagem de cor é substituído por um branco.

Esse debate coloca em primeiro plano a hipocrisia dos grandes meios de mídia quanto à representação de diferentes etnias de duas maneiras muito atuais: a primeira em que justamente por tentar esconder uma suposta “questão de raça” tratando a etnia branca como universal a produção conseguiu o seu inverso, e em segundo lugar ao tratar a transformação de uma garota japonesa em um ciborgue branco como uma melhoria. Já que o filme se baseia na ideia de que as pessoas podem se aperfeiçoar pela tecnologia e a protagonista é considerada a mais avançada de todas as criações tecnológicas até então.

Além disso, a estética institucional não pode, por princípio, ser questionadora, já que é a base ideológica do sistema vigente, através dela que podemos vislumbrar a ideologia do capital e suas propostas para o futuro. E como estética é também conteúdo, as diferenças narrativas entre os filmes americano e japoneses, advém desta mesma formatação.

Enquanto o anime se propõe a questionamentos filosóficos profundos sobre o que é a alma, o que é o humano e quais as fronteiras entre o orgânico e o tecnológico, o filme hollywoodiano põe em questão se a memória define o ser humano ou se podemos nos resumir às nossas ações. Mas pior do que resumir em uma única máxima tantas proposições filosóficas, é o fato de que o filme se propõe a respondê-la da maneira mais reducionista possível.

De acordo com a obra, nós humanos não nos definimos por nossas memórias, como defende a psicanálise e as linhas mais aceitas da antropologia, segundo ela somos apenas um resumo de nossas ações no mundo. Isso é o mesmo que dizer que não precisamos de subjetividade, nem para ser um humano, nem para tomar decisões.

O verdadeiro fantasma do milênio se encontra justamente aí, na perda da subjetividade graças a nuvem incessante de informação que nos envolve e controla. No aniquilamento da escolha pessoal pela ação sistemática e impensada exigida pelo modo de vida industrial.

*Vou aqui levar em conta tanto o filme um como o dois das versões japonesas entendendo que a adaptação americana junta conceitos e trechos da narrativa de ambos

**Plongée, em francês, significa "mergulho". Na linguagem técnica do cinema, um plano plongée é um plano em que as personagens são vistas de cima. Usualmente o plongée tem a ver com uma diminuição do personagem em relação a um entorno opressivo. O contra-plongée (ou plongê), por sua vez, é um "contra-mrgulho", e consiste em filmar a personagem de baixo para cima. Usualmente o plano contra-plongê atribui poder e autoridade ao personagem, como se de fato ele visse o espectador "de cima pra baixo".

 

Julia Gimenes é  formada em cinema e trabalha como montadora e fotógrafa desde então. Apesar do amor por fazer cinema, pensar sobre ele também sempre a encantou.