logo mnemocine

kane.png

           facebookm   b contato  

O espelho invertido de As Duas Irenes

As Duas Irenes (2017) é um filme sobre encontros. Encontro de si mesmo, de si com o outro e de si nos outros. Um filme no estilo Coming of Age (o equivalente na literatura aos romances de formação) no qual o espectador assiste à consolidação de uma personalidade adulta e à formação de uma identidade, conceito dos mais complexos de nosso tempo.

Irene (Priscila Bittencourt) é a irmã do meio de uma tradicional família burguesa de Góias que se constitui apenas por mulheres, com exceção do patriarca e “chefe da casa”: Tonico, o pai de Irene. Muito alinhado e sério, Tonico é a personificação do patriarcado branco brasileiro. Impassível, cínico e autoritário, o homem da casa mantém as aparências com sua família conservadora enquanto segue às escondidas com uma segunda família, outra mulher e a filha dos dois: a outra Irene, interpretada por Isabela Torres.

A primeira Irene é pequena, magra e introspectiva. Seu figurino segue uma paleta tão similar à do ambiente que ela parece fazer parte do cenário silencioso e afastado da cidadezinha do interior de Goiás onde a história se passa. Já a segunda Irene é alta, colorida e exuberante, ri e se expressa com leveza, já beija os garotos da sua idade no cinema e não parece carregar o peso da primeira Irene.

A Irene 'oficial' sabe da existência de sua nêmesis e vai até ela e sua mãe. Ela descobre esse outro mundo em que vive a segunda família de seu pai, um ambiente tão mais leve e colorido do que sua própria casa, e é com base nesse encontro que a história se desenrola.

As Irenes parecem ter, à primeira vista, algo de oposto uma à outra, algo que poderia gerar uma "competição feminina". A beleza e a desenvoltura de uma, contra a seriedade e inadequação da outra, só essa dicotomia já poderia estabelecer uma cruel relação de poder entre as duas e, no entanto, não é o que acontece. A Irene da primeira família chega à casa da segunda Irene e sua mãe se apresentando como Madalena e apesar de sua desconfiança, a segunda Irene consegue estabelecer com ela uma relação de amizade e cumplicidade, ignorando a princípio o fato de serem irmãs.

As meninas que tinham todo o script para se tornarem inimigas, se unem contra a opressão de gênero que pesa em tantos âmbitos de suas vidas, em uma cidade tão pequena e tradicional. As duas crescem e se desenvolvem juntas, tem suas primeiras experiências com garotos e álcool, brincam e se divertem juntas, como que para zombar do poder do pai. A opressão que o patriarca consegue exercer sobre as mães das garotas, que o esperam para o jantar e se deprimem com sua ausência, não alcança a geração seguinte.

As Irenes se negam a construir subjetividades binárias para si mesmas, como a que Tonico constrói para si. Elas não precisam anular uma a outra para demarcar sua existência, nem fundar sua feminilidade em oposição à figura do pai. As garotas constituem sua personalidade apesar dele e se no começo do filme a primeira Irene mostra sua raiva quebrando uma janela, mais para o final os ânimos se tornam mais calmos. Quanto mais as meninas se conhecem e convivem, mais nebulosa se torna a imagem grandiosa do pai, até que chega o ponto de poder ser questionada de frente.

A cena em que a segunda Irene tenta tomar a iniciativa com um garoto no cinema e é rejeitada, deixa claro o papel das mulheres naquele ambiente. Ainda que ela saia muito animada e decidida, o garoto não é capaz de lidar com a sua liberdade e, enquanto todos os outros casais adolescentes em que os garotos tomaram a iniciativa estão se beijando, Irene é abandonada no meio do filme.

Assim como sua mãe, uma mulher independente, que trabalha e cuida da filha sozinha não pode ser assumida por Tonico, ele deve manter seu casamento com a “mulher honrada”, a boa dona de casa burguesa, Irene também não serve como parceira nesse universo provinciano quando se coloca como uma mulher ativa em uma relação.

As duas Irenes representam a continuidade dos tipos de opressão femininas diferentes sofrido pela mãe de cada uma delas. De um lado a mulher burguesa, que não pode trabalhar ou participar de assuntos mais sérios do que a escolha de um vestido de debutante e de outro a mulher trabalhadora, que não pode ser tomada como esposa.

E por mais que o lugar da trabalhadora represente uma liberdade maior do que a da dona de casa, é mantido dentro do universo de construção do feminino, já que não se trata de uma padeira ou uma advogada, mas  de uma costureira. Ambas as mães são os lados de duas classes sociais do feminino do interior de Goiás, uma deve se dedicar à escolha dos vestidos das mulheres da família para festas em sociedade, a outra é a produtora dessas peças.

Ainda que po filme possa parecer muito verborrágico, com tantos questionamentos colocados em pauta, a verdade é que este é um filme de olhares e silêncio. Como bem observou Fábio Andrade em seu texto para a revista Cinética, os olhares da primeira Irene (Priscila Bittencourt) se dirigem com alguma frequência para um lugar ao lado da câmera, como se estivemos assistindo a cena pela subjetiva de uma personagem inexistente.

Através desses olhares e do silêncio da pequena cidade interiorana, onde de vez em quando se ouvem apenas os insetos do mato ou os roncos da sesta, é que a narrativa se estabelece. Fugindo da verborragia dos filmes e séries de indústria (em especial a norte-americana) e procurando estabelecer um cinema de imagens.

 Muito já se disse sobre as falhas do som no audiovisual brasileiro ou sobre como a nossa experiência de cinéfilos, tão pautada pelo cinema estrangeiro, que exige que leiamos legendas enquanto assistimos ao filme, torna nosso entendimento da sétima arte muito mais literário do que em países com indústrias mais consolidadas.

E é na linha de questionar esse modo de experienciar o cinema que jovens diretores têm tratado de valorizar a imagem e a expressão dos atores, de modo a contar sua história com o mínimo de diálogos possível. Em As Duas Irenes o método funciona perfeitamente, trazendo ainda uma ambientação para a narrativa que coloca o silêncio da cidade como metáfora para o segredo de Tonico: O não-dito como a sustentação das aparências.

Mais uma vez a cristalização da persona masculina como poder central é dada pelo binarismo e a negação. O que Tonico diz é para ocultar, seu silêncio solene, sentado em sua poltrona como em um trono, é o do culpado. E a voz das Irenes invertidas em posição, cada uma na casa da família da outra, é a quebra final da verticalização da família burguesa. Não é mais o grito sufocado de uma adolescente sozinha tentando questionar os pais, mas a desconstrução já em processo que vem se anunciar.

 

Julia Gimenes é  formada em cinema e trabalha como montadora e fotógrafa desde então. Apesar do amor por fazer cinema, pensar sobre ele também sempre a encantou.