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Jogador N°1: A singela e prazerosa diversão de Steven Spielberg

Por Ettore R. Migliorança

Retornando ao universo dos blockbusters, Spielberg entrega uma simples, porém muita divertida aventura sobre a cultura pop.

Há certos momentos na vida em que se nota uma necessidade de retorno às origens, mesmo que isso possa ocorrer contra sua vontade ou a favor dela. É o que deve ter passado na cabeça de Steven Spielberg, cineasta de extrema importância para indústria do cinema por sua contribuição na criação do “Novo cinema americano”, dada através de clássicos como E.T.- O Extraterrestre (1982), Tubarão (1975) e Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), filmes amados por muitas pessoas e icônicos para uma geração inteira. Ultimamente, Spielberg tem direcionado a sua carreira a um caráter mais sério e adulto por meio de seus dramas políticos e de guerra, como os seus mais recentes Lincoln (2012), Ponte dos espiões (2015) e o recém-indicado ao Oscar The Post - A Guerra Secreta.

Agora parece que o cineasta decidiu dar um tempo em sua filmografia mais séria para retornar ao cinema mais comercial de blockbuster infanto-juvenil, que tanto o consagrou em sua carreira, algo que ele não fazia desde As Aventuras de Tintim (2012). Como opção, ele assume o comando da adaptação do best-seller de Ernest Cline Jogador N°1, livro que foi considerado por muitos críticos literários como “o livro definitivo da cultura pop.

A história se centra no protagonista Wade Watts (Tye Shiredan), um jovem que vive em um futuro decadente, quando a Terra virou um lugar de extrema pobreza, e o único entretenimento que restou a humanidade é o OASIS, um jogo de realidade virtual que conecta o jogador a uma utopia digital de cultura pop, na qual você pode ter uma diversão infinita e ser quem quiser ser. O conflito ocorre quando o criador do jogo James Halliday (Mark Rylance) morre, e em seu último desejo de vida, decide criar um concurso que consiste em achar um Easter Egg (objeto ou mensagem escondida em uma obra ou produto, feito para ser uma brincadeira do criador para público) que está bem escondido no jogo, e aquele que for o primeiro jogador a encontrar, herdará toda a sua fortuna bilionária e ter todo o poder sobre o OASIS. Então Wade assume a caçada em buscar o Easter Egg ao lado de seus amigos Aech (Lena Waithe), Art3mis (Olivia Cooke), Daito (Win Morisako) e Sho (Philip Zhao). Juntos, devem enfrentar os perigos dentro e fora do OASIS para ganhar o concurso e salvar a única diversão que restou ao mundo de uma megacorporação que deseja se apoderar do jogo.

Diante dos elementos dessa história, a direção de Spielberg se apresenta como não se via há muito tempo: leve, descompromissada e, principalmente, segura e certa do que realizar. Ele mira somente num único objetivo: diversão. Não por acaso, o maior artificio de que tanto Spielberg  quanto o autor do livro (que assume a adaptação no roteiro junto com Zak Penn)  lançam mão é a utilização da cultura pop como principal elemento da história. São inúmeras as referências a videogames antigos ou modernos, filmes, animações, quadrinhos e etc., algo que poderia ser facilmente uma distração, mas que ajudam a elevar a diversão e servem ainda mais à história, pois muitas dessas referências são cruciais para a narrativa e seus desdobramentos.

Outro universo a que o cineasta não retornava desde muito tempo é o das cenas de ação completamente mirabolantes e visualmente incríveis, principalmente numa tela gigante. Destaque para a cena da corrida no início, prazerosamente frenética e absolutamente caótica. Muito se deve ao trabalho impressionante de Janusz Kaminski, parceiro de Spielberg como diretor de fotografia em A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998). Aqui ele dá um passo além em sua carreira misturando uma cinematografia exemplar com efeitos especiais de primeira, principalmente nas cenas de dentro do OASIS.Poucas vezes o cinema conseguiu criar tão bem a atmosfera do que seria um jogo imersivo, fazendo deste um do filmes mais visualmente ricos da carreira de Spielberg, não só pela referências, mas também pela clareza da divisão entre o mundo real (Cinzento, sujo e triste) e o mundo virtual (colorido, pulsante e cheio de vida).

A trilha musical do filme chega a chamar atenção, composta por Alan Silvestri, mais conhecido por compor trilhas para Robert Zemeckis, e vindo de filmes como De Volta Para O Futuro (1985) e Forrest Gump – O Contador de Histórias (1994), o compositor faz sua primeira parceria com Spielberg. Sua ucomposição nesse filme evoca muito bem o clima de aventura juvenil e infanto-juvenil, sendo uma clara e óbvia homenagem a John Williams, o icônico compositor dos temas de franquias como Indiana Jones, Harry Potter e Star Wars. Juntamente com a trilha de Silvestri, a trilha se compõe de muita uma música pop dos anos 80 e 90, contando com canções de Prince, Bee Gees e Tear for fears e entre outras.

O filme acerta pela escolha dos atores. De um lado, vemos jovens pouco conhecidos, porém à vontade e seguros em seus personagens, como o próprio Tye Shiredan fazendo o protagonista, que troca bem com os demais atores, principalmente com a atriz Olivia Cooke, que interpreta Art3mis/Samantha, por quem Wade se apaixona ao longo da trama. Do outro lado, vê-se atores veteranos fazendo atuações contidas e necessárias aos personagens, como Mark Rylance fazendo o excêntrico James Halliday, cujo arquétipo do gênio incompreendido e deslocado socialmente funciona muito bem. Além dele temos Ben Mendelsohn fazendo o vilão do filme, o chefe da corporação, que mesmo não sendo nada além do que o seu personagem pede, é o vilão ideal para a história.

Jogador N°1 pode ser considerado como um dos blockbusters just-for-fun mais bem executados da atualidade, mesmo com uma história simples, beirando à previsibilidade em alguns momentos, e com um roteiro que sofre com sequências excessivamente expositivas. Mesmo assim, o filme consegue provar o talento de Steven Spielberg, que mesmo tendo passado de seu auge há muito tempo, consegue entregar um entretenimento honesto, de qualidade e que faz o espectador se sentir feliz e bem durante uma sessão de cinema.

 

Ettore R. Migliorança é estudante de Cinema, com ênfase em roteiro e análise de filme, e já produziu dois curtas universitários