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Análise Fílmica e Histórica dos filmes “A Primeira Noite de um Homem” e “Perdidos na Noite”

 

 

Uma análise sobre a Nova Hollywood tendo como ponto central os filmes Primeira Noite de um Homem e Perdidos na Noite que marcaram essa nova época da indústria cinematográfica norte-americana.

 

Os filmes “A Primeira Noite de um Homem” de 1967 e “Perdidos na Noite” de 1969 são percursores de uma nova era em Hollywood que foi denominada como Nova Hollywood. Por conta de diversos fatores, mas em especial no plano social, a era dos estúdios estava perdendo sua glória e caminhando em direção a falência. Os filmes comandados pelos executivos que possuíam os estúdios não mais interessavam ao público que se sentia desconectado e não representado com o tipo de obras audiovisuais que eram lançadas. A sociedade americana tinha mudado e era hora de o cinema acompanhar essa mudança.

Os filmes da Nova Hollywood salvaram a falência dos estúdios trazendo jovens diretores, atores e roteiristas que buscavam em seus filmes um cinema mais autoral e inspirado no cinema europeu. Tem-se a mudança da figura de poder do produtor para o diretor. Embalados pelo movimento da contracultura americana esses diretores trouxeram consigo roteiros autorais focados em personagens mais reais, perdidos e com falhas, além de inovarem a estética presente nos filmes de estúdio.

Um dos percursores desse movimento é justamente o filme “A Primeira Noite de um Homem” dirigido por Mike Nichols. O filme trouxe muitas inovações e até mesmo ousadias para as telas de cinema norte-americanas além de várias críticas contidas na história. Logo no começo do filme o personagem Ben está em seu quarto enquanto uma festa de comemoração por ter terminado a faculdade o espera no andar de baixo. A expressão de Ben demonstra um certo desconforto com aquela situação e uma preocupação está estampada em seu rosto. Quando o pai lhe pergunta qual é o problema ele diz que está preocupado e inseguro em relação ao futuro. O sentimento de Ben representa o desconforto e a falta de expectativa presente na época pela geração “ baby-boom” que sentia essa desesperança em relação ao futuro e não se sentia representada pelos valores do passado. Esse sentimento será transmitido ao longo do filme inteiro pela personalidade de Ben e pelos enquadramentos detalhadamente escolhidos por Nichols. Os planos nas primeiras cenas tendem a ser fechados no rosto de Ben e é frequente que um personagem entre em sua frente e “sangre” o plano, exatamente como o pai dele faz quando pergunta o que lhe preocupa. No decorrer da festa no andar de baixo, a câmera continua em um plano fechado no rosto de Ben enquanto ele se movimenta pelo espaço criando uma sensação sufocante que reflete o que ele está sentido.

O filme trata do caso entre Ben e a Sra Robinson, uma mulher mais velha que ele e que é amiga de seus pais. O assunto já foi considerado como um tema ousado para época que foi acompanhado de planos que quebraram tabus no cinema americano. Na cena em que a Sra Robinson seduz Ben, Nichols cria um dos planos mais revolucionários e icônicos da história do cinema e enquadra Ben em segundo plano entre as pernas da Sra Robinson. O plano é tão marcante que foi referenciado por outros filmes ao longo do tempo, incluído o filme “Perdidos na Noite” que será discutido. Ben é um garoto inocente e abobalhado que tem suas decisões tomadas pelos pais. Ele representa, nesse momento, o cinema norte-americano clássico e a Sra Robinson representa a sociedade americana que irá “desvirgina-lo”. A sociedade já havia mudado e era hora de o cinema mudar também. Mas, o grande acerto do filme é que o amadurecimento não passa pelo sexo como muitos pensam. Ben realmente amadurece quando ele mesmo toma suas decisões e não quando perde a virgindade. Ele se torna homem a partir do momento em que sabe o que quer para seu futuro e não o que alguma pessoa lhe disse. Tal como a contracultura, que estava em seu auge em 1967, o importante não era o amor livre, por exemplo, mas sim o poder de decidir o que é melhor para si e para seu futuro e ter o poder de recusar o passado em busca de um futuro que lhe faça sentido.

Como já dito, o filme foi muito ousado para época. Na mesma cena em que a Sra Robinson está tentando seduzir Ben, Nichols utiliza uma estética muito interessante para revelar cenas de nudez da Sra Robinson, até então nunca antes vistas. Por meio de cortes rápidos revelando apenas pequenos detalhes ou através do reflexo de um quadro, o diretor constrói uma provocação no espectador e uma sensualidade proibida. Faz-se interessante a comparação com “Perdidos na Noite” nesse ponto. Embora os dois filmes compartilhem de inúmeras semelhanças em seus quesitos inovadores e ousados, além de fazerem parte de um mesmo movimento, o filme de 1969 apresenta-se como bem mais ousado nesse sentido (e em outros mencionados mais adiante). Enquanto “A Primeira Noite de um Homem” constrói uma nudez mais provocativa por meio do recurso citado “Perdidos na Noite” propõe uma abordagem mais explícita acompanhado de vários momentos artísticos e lúdicos na direção de John Schlesinger.

Por fim, um dos momentos mais significativos do filme é o seu final. Ben se apaixona por Elaine, filha da Sra Robinson, e decide interromper o casamento forçado que seus pais a estão obrigando a ter para que não fique com Ben. O caminho inteiro de Ben para interromper o casamento é muito bem dirigido e tem aspectos de uma corrida contra o tempo. Uma das cenas que melhor representa isso é a corrida de Ben até a igreja. Filmada com uma lente teleobjetiva, o caminho que Dustin Hoffman (que, aliás, está excelente como sempre) percorre parece pequeno, mas, ao mesmo tempo, não parece ter fim. Esse recurso da lente teleobjetiva que achata a imagem é utilizado de uma maneira narrativa: o caminho final parece ser o mais longo. Ao chegar na igreja, Ben consegue convencer Elaine a fugir com ele e, assim como Ben, ela se liberta das decisões tomada pelos pais e escolhe seu próprio futuro. Animados, os dois fogem em um ônibus e lá que acontece a cena mais carregada de significado do filme: os dois depois de passada a euforia da fuga, perdem o sorriso do rosto e olham para frente com olhares incertos. Independente das mudanças, o sentimento de desesperança em relação ao futuro presente nessa geração permanece e está estampado nos rostos dos dois jovens na medida em que eles fogem para o desconhecido. Eles podem até mesmo serem comparados com o movimento da contracultura em si: transgredimos as regras, mas e agora?

O filme “Primeira Noite de um Homem” abriu alas para a nova geração que inundaria Hollywood com produções originais e autorais. Sem ele, não seria possível a realização do próximo filme: “Perdidos na Noite”. No mesmo caráter inovador que o primeiro, mas trazendo uma proposta mais radical e ousada, seja na direção ou no roteiro, “Perdidos na Noite” foi o primeiro filme da Nova Hollywood a conquistar a honraria máxima do Oscar de Melhor Filme, dois anos após o lançamento de “A Primeira Noite de um Homem”. A história do filme acompanha Joe, um cowboy do Texas que decide ir tentar a vida em Nova York como um acompanhante de luxo, mas que descobre que a vida na cidade grande não é fácil e que encontra em Ratso, um malandro das ruas, seu único amigo em um mundo degradado das cidades grandes. Assim como outros filmes que virão na sequência, como por exemplo “Taxi Driver”, o filme focará em uma população marginalizada em uma degradada Nova York. Os personagens Joe e Ratso fazem parte desse mundo de prostituição e pobreza onde eles batalham para sobreviver a cada dia.

O filme se inicia com Joe deixando o Texas em um ônibus em direção a cidade grande. O personagem trata-se de um garoto comum do interior que sonha em se dar bem na cidade, mas nesse caso como um garoto de programa. A parte da viagem é dirigida como um “road movie” com várias cenas de paisagens passando pela janela do ônibus e intercaladas com flashbacks da infância de Joe que ajuda o espectador a conhecer melhor o personagem. Já no ônibus Joe vai começar a sentir a diferença entre a sua cidade natal e o mundo que o espera sendo transmitida na indiferença na fala das pessoas. Ao chegar em Nova York a dificuldade só aumentará. O charme com as mulheres que ele pensava ser a sua maior qualidade não surtirá o efeito que ele espera, tanto que em seu primeiro programa é ele quem acaba dando dinheiro para a mulher. Aliás, essa cena é curiosamente dirigida por Schlesinger que representa o sexo entre os dois a partir da troca de canais na televisão que são trocados pelo movimento dos corpos na cama e, para finalizar, ele insere uma máquina de cassino dando um prêmio, uma clara alusão ao ofício de Joe.

Logo na sequência Joe conhece Ratso que acaba o enganando e o levando para um “cliente” completamente louco em uma cena muito interessante que traz à tona lembranças desconfortantes do passado de Joe. Sem dinheiro e sem moradia, Joe acaba se prostituindo nas ruas e aceitando encontros com homens. Esse ponto é importantíssimo por dois motivos: É a primeira vez em que um personagem homossexual é visto nas telas americanas o que torna o filme muito ousado e transcendente. O segundo motivo está na desconstrução da figura clássica do cowboy que vem sendo desconstruída ao longo do filme e chega ao seu ápice aqui. Como dito, Joe é um cowboy do Texas que anda trajado como tal pela cidade. A figura do cowboy, importante personagem do clássico cinema de estúdios, sempre foi apresentada como um herói em todo o sentido da palavra. O cowboy no cinema norte-americano até então representava um personagem correto, vencedor e símbolo da masculinidade. O fato de Joe ser um cowboy que é um garoto de programa marginalizado e frágil perante a cidade grande desconstrói essa imagem trabalhada a tantos anos pelo cinema de estúdios. Por fim, quando ele vende seu corpo para uma relação homossexual quebra-se colossalmente a ideia frágil de masculinidade associado ao cowboy. Essa proposta ousadíssima é o ponto alto do filme: desconstruir uma figura tão mitológica do cinema americano e provocá-la ao mundo real é a força do filme e de todo o movimento da Nova Hollywood. A mensagem está clara. A sociedade não é mais assim e não se importa mais com essas figuras endeusadas. A vontade é de ver personagens reais, com problemas reais e que estejam inseridos na sociedade real.

Por fim, é importante ressaltar a qualidade da direção e das interpretações nesse filme. Joe é vivido espetacularmente por John Voight e Ratso, personagem malandro, com problema nas pernas e com uma tosse que não passa é vivido pelo genial Dustin Hoffman. Ratso é o personagem que já está acostumado à cidade grande, que assim como um rato, faz de tudo para sobreviver. Depois de enganar Joe, Ratso vai acolhê-lo e com ele vai formar uma amizade verdadeira e, em muitas vezes, aparentemente conjugal, onde um apoiará e ajudará o outro nesse caminho que a vida os colocou. O trabalho de atuação de Dustin Hoffman é fenomenal, principalmente quando comparado com o papel de Ben em “A Primeira noite de um Homem”. Enquanto no primeiro filme Hoffman dá vida a um inocente garoto de classe média alta em “Perdidos na Noite” ele incorpora um malandro manco que rasteja pela cidade e que vive através de golpes que lhe garantem o sustento para aquele dia. Seja na forma de falar, de olhar e de caminhar Hoffman consegue transmitir a dor de um ser que é rejeitado pela sociedade e que somente busca sobreviver diante todas as dificuldades. Sua atuação é tão excepcional que a identificação do público com Ratso é imensa e quando este morre no ônibus com destino a sua tão sonhada Flórida o público sente a perda desse personagem e se emociona com o envolvimento do corpo dele pelos braços de Joe.

No quesito da direção pode-se verificar uma diferença enorme com “A Primeira Noite de um Homem”. Embora Nichols tenha trazido muita originalidade, planos memoráveis e estética inovadora, sua direção é bem clássica no sentido de contar a história do personagem. Não são utilizados flashbacks e muito menos sequências mais lúdicas. Já no caso de Schlesinger, uma proposta mais alucinante e desconexa do fluxo natural da narrativa é empregada, como por exemplo em duas sequências totalmente lúdicas que são desenvolvidas pelo diretor. Na primeira, após ser enganado por Ratso, Joe sai procurando ele pela cidade e em uma cena no metrô o diretor distorce a imagem e a repete várias vezes. A montagem rápida e com muitos elementos repetidos que alternam entre as expressões de Joe e o que ele vê são alucinantes e conferem ao filme um tom frenético que amplia o momento da narrativa. Na outra cena, enquanto Ratso e Joe estão em uma festa, o diretor propões uma sensação mais imaginativa composta pelo ambiente e o uso de drogas. Os planos são mais lentos e, embora com vários cortes, a montagem não é frenética e se alterna entre planos de Ratso com planos de Joe além de planos mais abstratos de danças, beijos e sexo.

Em suma, os dois filmes trouxeram, cada qual de sua maneira, revoluções e quebras de tabus para as telas de cinema norte-americanas. A inspiração, talento e originalidade de seus diretores e atores foram responsáveis por não só salvar Hollywood economicamente, mas também artisticamente e propuseram uma reviravolta na arte cinematográfica americana que com muitos méritos se adaptou ao momento vivido pela sociedade e transformou o cinema de todo o mundo para sempre. Essas duas obras estão talhadas na história do cinema mundial e mesmo depois de tanto tempo ainda se colocam como importantes peças artísticas a serem vistas e analisadas hoje em em dia.