Por André Quental Sanchez
Apesar das semelhanças temáticas, a diferenciação entre Meu nome é Alfred Hitchcock (2022, Mark Cousins), e Fellini, Confidências Revisitadas (2023, Jean- Christophe Rosé) se dá pela maneira como são construídos os seus discursos. Enquanto o primeiro é construído em cima de uma narração e um ode ao diretor, o segundo constroi um relato mais humano e menos onírico, trabalhando o formato das entrevistas e focando principalmente nas reflexões de Federico Fellini.
O começo explica que o diretor Jean-Christophe entrevistou Fellini no começo dos anos 80, mas grande parte das filmagens acabaram sendo perdidas. Após muitos anos, Rosé revisita o que restou, optando por terminar o filme para devolver à vida esse cineasta que marcou o mundo.
Em menos de uma hora de documentário, acompanhamos a vida de Fellini como jovem roteirista e somos guiados por momentos marcantes de sua vida. Entramos na vida pessoal do diretor italiano na medida em que testemunhamos o encontro com a musa de sua vida, Giulietta Masina, e acompanhamos a luta constante que Fellini teve com a depressão, algo que o guiou inclusive criativamente.
É reconfortante assistir um Fellini com mais de 60 anos, tão cheio de vida e com tanta sabedoria para distribuir, seus comentários permanecendo tão meticulosos quanto a sua direção. Ao mesmo tempo em que traz reflexões pessoais, o diretor também fala de conhecimentos técnicos como a importância de uma boa iluminação, que segundo ele traria a pureza do cinema.
Assim como no filme sobre o “mestre do suspense”, somos apresentados a trechos e bastidores de diversas produções de Fellini. A produção de Amarcord (1973) revela como o diretor lidou com a morte de seu analista, enquanto os materiais de La Dolce Vida (1960) demonstram as polêmicas que acompanharam o filme nos setores mais conservadores. Casanova (1976), por sua vez, atravessa a ponte falta de identificação que Fellini apresentava com seu protagonista.
Seguindo esse último, acompanhamos um retrato triste dos anos finais de Fellini. Jean Christophe constroi um acelerado e melancólico retrato de seus últimos anos. O fato de parte das filmagens ter sido perdida, e a entrevista ter sido feita 12 anos antes do próprio Federico morrer, pode ter auxiliado na mudança de ritmo. Mas isto não afeta o documentário em seu objetivo de devolver Fellini à vida.
Biografia
André Quental Sanchez é graduado em cinema na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), onde roteirizou e dirigiu um curta-metragem. Tem muito interesse na área do som, crítica e roteiro e gosto pelo campo cinematográfico desde que se enxerga como gente. Atualmente está fazendo pós-graduação em roteiro no Senac Lapa Scipião e pretende seguir vida acadêmica.
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A cobertura do 29º Festival Internacional de Documentário É Tudo Verdade faz parte do programa Jovens Críticos que busca desenvolver e dar espaço para novos talentos do pensamento cinematográfico brasileiro.
Equipe Jovens Críticos Mnemocine:
Coordenação e Idealização: Flávio Brito
Produção e Edição: Bruno Dias
Edição: Davi Krasilchik, Luca Scupino, Fernando Oikawa e Gabriela Saragosa
Edição Adjunta e Assistente de Produção: Davi Krasilchik e Rayane Lima
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